Aerial panorama of Ouro Preto, revealing baroque splendor and mining heritage

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Ouro Preto

Minas Gerais, Brasil

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Ouro Preto | Mina du Veloso

Bem-vindo à cidade histórica de Ouro Preto, um Patrimônio Mundial da UNESCO no coração de Minas Gerais, Brasil. Ouro Preto tornou-se um centro próspero e movimentado para a extração de ouro durante o período colonial brasileiro no século XVIII. Enquanto Ouro Preto é celebrada por sua opulenta arquitetura barroca, uma narrativa menos conhecida está entrelaçada na essência da cidade - a história de uma comunidade afro-brasileira e suas contribuições indispensáveis para a cidade. Este tour foca especificamente na Mina du Veloso, uma mina de ouro subterrânea do século XVIII localizada na entrada da cidade. Nesta jornada, você ouvirá de Eduardo Evangelista, proprietário da Mina Du Veloso, da historiadora Sidnéa dos Santos e de Cesar Barella da Universidade de Ouro Preto.

Stop 1. Bairro São Cristóvão

A Mina du Veloso está localizada no bairro de encosta de São Cristóvão, onde as casas são agrupadas. A mina recebe o nome de seu primeiro proprietário, o Coronel José Veloso do Carmo, que explorou trabalho escravo para a produção de ouro entre 1761 e 1819. As minas impulsionaram o crescimento da cidade, levando à construção de uma opulenta arquitetura barroca e estabelecendo Ouro Preto como um polo cultural e econômico. Rodeando os escombros do local de mineração, o bairro de São Cristovão integra de forma contínua estruturas antigas e novas. Você encontrará entradas para minas históricas nos quintais das pessoas. Estendendo-se ao longo da cadeia montanhosa estão muros de contenção de pedra, chamados de "mundéus", usados como reservatórios para lavagem de minério, ao lado de um extenso sistema de aquedutos. Apesar de sua importância histórica, este bairro está fora do perímetro protegido do patrimônio cultural de Ouro Preto.

Eduardo Evangelista

A mina do Veloso, ela está localizada bem na entrada da cidade de Ouro Preto, no bairro São Cristóvão. E ela é importante porque ela foi uma das últimas minas ainda a extrair o ouro aqui no período setecentista. E aqui no bairro a gente tem um grande parque arqueológico ligado à História da mineração do ouro. Então, a Mina do Veloso, ela é uma galeria subterrânea que faz parte de um grande complexo minerador que ainda está todo preservado na Serra de Ouro Preto, bem na entrada da cidade.

Sidnéa dos Santos

Quando chega o Século XX, tem uma elite rica em São Paulo pensando o futuro desse país. E essa elite rica de São Paulo vem para Minas Gerais pensar o futuro desse país. E é essa elite rica, que pós Semana de Arte Moderna em 22, começa circular por esse território escolhendo o que vai ser registrado como patrimônio, o que vai ser importante, e criando uma outra versão, ou uma outra caixinha, para colocar aquilo que não era tão interessante. E aquilo que não era tão interessante era a história dos Povos Indígenas e Negros, que vão ser tratados como folclore ou como exótico, e não como cultura. Mas sem o braço africano e sem o braço indígena, não existe Ouro Preto. E onde fica a nossa história? Então é criado todo esse mote em torno do conjunto barroco a ser preservado, mas não se conta quem construiu esse conjunto barroco. Não se conta que para fundir um sino era preciso a sabedoria dos ferreiros africanos. Não se conta que para cortar o quartzito e conseguir emparelhar pedras e criar os muros, as ruas, levantar paredes, era preciso a sabedoria africana e também a sabedoria indígena. Então, tudo isso que foi construído, foi construído a partir de um olhar que não era o olhar das pessoas que habitavam esse lugar, Inclusive pessoas de cor que habitavam o centro de Ouro Preto, foram gradativamente sendo expulsas.

Cesar Barella

É interessante quando a gente olha a paisagem de Ouro Preto, seja com drone sobrevoando ou nos bairros atrás de cada casa, não atrás de cada casa, mas atrás de muitas casas, a gente vê a abertura de minas antigas. Algumas sendo utilizadas como depósitos. Existe um cadastro feito também, se eu não estou enganado, pela academia, por um professor da universidade, que registra mais de 170 minas dessas antigas. E de vez em quando; é um processo esporádico quando comparado aos escorregamentos, aos rolamentos e queda de blocos rochosos, é muito mais esporádico; mas a gente tem o colapso dessa mina. Então é um processo vertical pela falta de suporte do material que está em cima. Então, verticalmente o material desce com grande velocidade e às vezes pode ter alguma casa em cima dessas minas. E aí às vezes a gente não tem conhecimento disso.

Stop 2. Centro Cultural Mina Du Veloso

Hoje, a Mina Du Veloso é um centro cultural onde os visitantes podem explorar túneis subterrâneos e aprender sobre o significado histórico e cultural da mineração de ouro. O local retrata vividamente as duras realidades enfrentadas pelos mineradores durante a era colonial, proporcionando um vislumbre severo da opressão, do trabalho forçado e das condições exigentes de extração. Construído durante a restauração de 2010, o centro de visitantes foi construído através da combinação de madeira e barro, inspirado nos métodos de construção africanos do século XVIII. Este edifício captura a essência das habilidades manuais africanas, fundamentais para a evolução da região. A área de recepção, criada usando essas técnicas tradicionais, agora é um testemunho da inventividade e conhecimento daqueles que contribuíram para o patrimônio arquitetônico de Ouro Preto há mais de três séculos.

Eduardo Evangelista

E aí­ eu comprei a casa e comecei a fazer a reestruturação do espaço, começando lá pela mina. Então ficamos mais ou menos um ano fazendo trabalho de recuperação interna, e durante o tempo que a gente estava lá dentro, a gente tava pensando como íamos fazer o receptivo. Então a casinha que tinha, já não tinha como recuperá-la, restaurá-la. Então a gente desmontou e usou técnicas setecentistas, de usar madeira e barro, que é uma técnica africana também de construção. E o legado africano aqui em Minas ele vai muito além só da mineração e metalurgia. Ele também vai na construção civil, porque as técnicas de construção, como madeira, barro, capim e às vezes até estrume de vaca e tal, É uma forma que os africanos já construíam há milhares de anos na África. Então eles vêm pra cá, há 300 anos atrás, com as dificuldades todas do espaço que a gente tem aqui em Ouro Preto, eles construíram aquela maravilha lá no centro, que é toda feita de madeira e barro. Então aqui a gente resolveu também construir o receptivo com essas mesmas técnicas. Então aplicamos uma madeira à vista para poder as pessoas entenderem como que funciona toda a parte de estruturação da casa. Então a gente tentou reproduzir aqui um pouco do conhecimento dos povos africanos na construção civil também.

Stop 3. O pátio

Entre no centro de visitantes para uma calorosa recepção. Localizado entre os prédios, o pátio triangular tem pisos de paralelepípedos e paredes cobertas de vegetação. O pátio, projetado para mais do que o turismo, serve como uma plataforma para compartilhar e promover a história menos conhecida de Ouro Preto tanto para os visitantes quanto para a comunidade. À direita, você encontrará mapas mostrando o layout intricado da mina da Serra do Veloso. Por todo o pátio, painéis informativos e vários objetos, incluindo livros, instrumentos musicais, fotos e pequenas estátuas, fornecem insights sobre o cativante significado cultural deste local histórico.

Eduardo Evangelista

A mina, desde o seu funcionamento, uma das missões que a gente colocou foi que ela se servisse também como um lugar de irradiação dessa energia toda que a gente trabalha aqui na mina. Essa riqueza de conhecimento. Essa mudança de paradigma. Essa outra visão da História. A gente queria que ela não ficasse somente como local de visitação turística, mas que ela fosse também um lugar de potencialização, de empoderamento. Então, desde o início, a gente sempre fez aqui trabalhos de conscientização, de formação, de oportunizar a comunidade do bairro a conhecer o patrimônio que a gente tem aqui, porque desde quando criança eu não sabia dessas estruturas. Eu estudava dentro de um mundéu e não sabia o que era aquilo. Só falavam comigo: “Isso é coisa dos antigos” e ponto. Então quando eu descobri essa máquina que tem aqui no bairro, esse conhecimento, essa riqueza, isso me empoderou tanto profissionalmente como engenheiro lá na universidade, como também descendente dessas pessoas super potentes que vieram para cá.

Stop 4. Riquezas Culturais Além da Escravidão

À esquerda, uma área de cozinha aberta tem vários objetos pendurados nas paredes que estão enraizados no rico patrimônio cultural trazido e desenvolvido aqui pela comunidade africana. Observe os três berimbaus, instrumentos musicais únicos com um arco de madeira flexível, corda de aço e um ressonador chamado de cabaça. Os berimbaus são fundamentais para a Capoeira, uma forma de dança-luta inspirada em tradições africanas. Os indivíduos escravizados mesclaram habilmentes de dança com treinamento de combate, permitindo-lhes praticar discretamente. Esses objetos refletem um dos objetivos da Mina du Veloso de recuperar e compartilhar tanto a cultura quanto os costumes sociais da comunidade negra, indo além da narrativa comum de sofrimento e opressão geralmente associada à história da escravidão.

Sidnéa dos Santos

Disfarçadamente, discretamente e sabiamente eles foram deixando inúmeras mensagens. E a gente agora está aprendendo a decodificar essas mensagens. Não é só uma sacada de ferro. É uma sacada de ferro com vários símbolos da escrita Adinkra, Da escrita de povos que dominavam o processo da mineração e que deixaram um recado ali. Não é só um conjunto de búzios desenhado num retábulo. É falar de uma África ancestral que existiu aqui. É falar de sacerdotes e sacerdotisas, de reis e rainhas que, embora escravizados, acharam um meio de se manter vivos, de resistir e de passar essa realeza adiante. Então, por mais que a elite branca tentasse sufocar tudo isso, isso está vivo aqui até hoje.

Stop 5. Entre nas minas

As minas apresentam mais de 400 metros de galerias interligadas, apoiadas por robustos pilares sustentando o teto. O canal principal da mina se estende por cerca de 192 metros, ramificando-se em passagens adicionais. Algumas dessas passagens permanecem sem mapeamento devido à sua acessibilidade desafiadora. A passagem principal dentro da mina começa com um teto baixo, aumentando gradualmente à medida que os mineiros se aventuravam mais a fundo. À direita, há um túnel lateral onde o ouro foi descoberto pela primeira vez. No entanto, uma vez que os mineiros não encontraram mais ouro naquele túnel, escolheram fechá-lo e continuar na direção principal. A água flui consistentemente pelo chão da galeria principal, originando-se de vários túneis de água na cadeia montanhosa. Durante períodos de chuva intensificada, o interior pode ficar completamente inundado.

Eduardo Evangelista

Aqui na Mina du Veloso a gente tem esse fluxo de água que sempre passou por aqui, desde o tempo que ela foi aberta para mineração. Então já tem um fluxo aí criado exatamente para facilitar a mineração. Com a água é muito mais fácil extrair o ouro. Na verdade, sem água não há mineração. Você não consegue separar o ouro da terra se não tiver água. Então eles jogavam essa água para dentro das galerias, não só aqui na Mina du Veloso, mas em toda a Serra de Ouro Preto. Então, essa água passando por dentro das galerias, ela vai provocar erosão. “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” ou erode.

Stop 6. Um dia típico na mina

Os mineiros suportavam dias de trabalho extenuantes, envolvendo-se em trabalhos físicos árduos sob condições desafiadoras. Seu dia geralmente começava antes do amanhecer, quando desciam na mina para extrair recursos valiosos. Dentro das minas, as tarefas eram organizadas hierarquicamente, com funções específicas atribuidas a cada grupo. Além de sua proficiência em mineração, os africanos escravizados eram altamente valorizados por seu conhecimento em metalurgia, uma ciência focada na compreensão e engenharia de materiais metálicos. Eles demonstraram habilidade excepcional na fabricação de suas próprias ferramentas, com alguns desses artefatos sendo desenterrados durante a escavação da mina.

Eduardo Evangelista

E aÍ a gente sempre cita o Eschwege, que é um alemão que escreve o Pluto Brasiliensis, que é um livro que ele conta todo o dia a dia da mineração, não só aqui em Ouro Preto, antiga Vila Rica, mas no Brasil todo, até Goiás, Jacobina lá na Bahia. Então ele percorre todas essas regiões de extração de ouro, mas ele se fixa muito aqui em Ouro Preto. Então ele tem relatos e aí ele passa nesses relatos a importância do do negro africano aqui, porque era ele que detinha as técnicas de mineração e tocava toda a indústria. Então todo o fazer da extração de ouro estava nas mãos, estava no cérebro desses negros africanos que estavam aqui. E eles vinham de regiões lá da África e que tinham já grande experiência na extração de ouro. E aí nesses livros você vê os relatos desses europeus que estavam aqui mostrando a influências desses negros.

Stop 7. Desafios das mudanças climáticas

Hoje, Ouro Preto, incluindo suas galerias de mineração como a Mina Du Veloso, enfrenta os impactos das mudanças climáticas. A topografia montanhosa da cidade, aliada à intensificação das chuvas devido às mudanças climáticas, aumenta os riscos de deslizamentos de terra e erosão, ameaçando tanto a comunidade quanto os edifícios e minas históricos. Agravando esses desafios está o papel contínuo de Ouro Preto como uma cidade mineradora, agora focada na extração de minério de ferro. Essa atividade de mineração, reminiscente do século XVIII, tem impactos ambientais substanciais, agravados pelas mudanças climáticas. O monitoramento contínuo é essencial para lidar com o aumento do volume de chuvas e as ameaças associadas. Enfrentar os impactos das mudanças climáticas é vital para preservar o patrimônio da mina e garantir a segurança das comunidades locais.

Eduardo Evangelista

E nos último dois anos a gente vê um aumento muito substancial desse volume de água que passa por aqui. E isso é reflexo desse processo das mudanças climáticas. Está aumentando, extremando o volume de chuva e tudo aqui na nossa região. Então essa ligação a gente vê diretamente o aquecimento global, todo esse processo que o planeta está passando aí­ de extremos. Extremos de calor, extremo de frio, extremo de chuva. A gente sente isso aqui e isso é um processo que a gente tem que monitorar aqui na base e mudar a forma de ocuparmos o planeta, porque é irremediável. Se a gente não tomar providências, vai ficar cada vez pior.

Cesar Barella

Ouro Preto, ele tem uma gama de processos de que ocorrem no seu território. A gente tem escorregamentos, tem queda e rolamento de blocos rochosos, tem rastejo; que é o movimento lento e que deu origem a um grande processo recente, que teve desabrigados, casas destruídas. Nos distritos a gente tem enxurrada, a gente tem grandes erosões, erosões bem grandes. Atrelado às mudanças climáticas, o gatilho para todo esse processo é a chuva. Então o que vai acontecer? Se você tem projeções com as mudanças climáticas que aumentem essas chuvas, e é o que está sendo previsto, a gente vai ter uma intensificação desses processos. Então a gente tem essa intensificação dos processos que podem culminar em desastres, mas não necessariamente. Vai culminar em desastres se a gente tiver a ocupação dessa parcela do território já propenso naturalmente a esses eventos.

Stop 8. Legado de Ouro Preto

A prosperidade de Ouro Preto foi construída com base na engenhosidade das comunidades africanas escravizadas que, apesar das imensas dificuldades, desempenharam um papel pioneiro na mineração regional. Reconhecer seu patrimônio minerador oferece uma nova perspectiva sobre a riqueza da cidade, visível em sua icônica arquitetura barroca. Os descendentes das pessoas africanas escravizadas em Ouro Preto têm poucos locais de patrimônio restantes que refletem sua história. As minas, no entanto, permanecem como lembretes tangíveis que testemunham suas lutas, contribuições e patrimônio cultural que devem ser protegidos dos efeitos das mudanças climáticas.